O que os outros não vêem (nem sentem)

 

Estes últimos dias foram complicados. Ando com uma crise de ATM, que agudizou bastante. Começa por contraturas na cara (no meu lado esquerdo), descem até aos ombros, e sobrem até à cabeça, chegando ao ponto de doer ao pentear.

Depois, na segunda fase, entram os tais choques elétricos ou queimaduras por debaixo da pele, no meu caso, em todo o lado esquerdo, e sinto a cara a repuxar para baixo. Muitas das vezes também tenho a face dormente. 


Este tipo de dor, só consigo focar na dor, não consigo pensar em nada mais “para me distrair” (como tantos me dizem). Só se consegue respirar, e pensar, doí, doí doí doí, respira, doí doí em modo repetição.

Despis da vigésima consulta e idas à urgência, finalmente fui vista por um cirurgião Maxilo-facial que indicou novos medicamentos. Melhorei bastante. Durante a consulta, foram várias vezes repetidas as tais frases que me põem maluca, “ não stress tanto na sua vida”, “tente não pensar nos problemas”, entre outras. Obviamente, se isto fosse um problema de stress apenas, eu conseguiria gerir os meus pensamentos para passarinhos e flores, e longos passeios à beira mar.  Não sou maluca ao ponto de querer ter estas dores, ainda para mais na cara e que além de doer, impedem de ter uma vida familiar  normal. Claro que não foi isso que disse, mas pensei, enquanto sorria em tons de amarelo. 

Há três atrás, deitei-me à hora de sempre. Adormecei profundamente  e por volta das 3 da manhã, não dormi mais. Viro para um lado, para o outro, várias idas à casa-de-banho, mudei as calças do pijama, pois poderia ser do calor, e quando fui ver se já era aceitável levantar, descobri que ainda eram 6:30 da manhã. É que nem a cadela ainda tinha acordado!

Percebi de manhã que não tinha tomado os comprimidos para o sono e o relaxante muscular. Estavam preparados , como faço sempre, na mesinha de cabeceira e la ficaram à noite toda.

Logo cedo fui ao ikea (projecto novo, quarto do Francisco), e Zara Home. Tinha as medidas de todas as  camas, e comecei a escolher os lençóis. E foi aqui que tudo desabou. Olhava para o papel escrito à mão, e olhava para as medidas na embalagem, e embora os números fossem parecidos, não conseguia ter a certeza que iriam servir. Fez-se um grande e entrançado nó na minha cabeça e por mais que tivesse a certeza que era algo básico e que se fosse outro dia teria tudo escolhido em menos de 20 minutos, fiquei ali a olhar para um papel meio dobrado, e uma embalagem novinha, tive vergonha, até porque as lágrimas já ameaçavam descer pelas bochechas abaixo. 

Encontrei uma colaboradora, e muito envergonhadamente lá lhe pedi ajuda. Disse a verdade, tenho fibromialgia, não dormi a noite toda, e neste momento não consigo sequer ver quais são os lençóis que servem nestas camas mesmo tendo aqui as medidas, apresentando um papel já mais enrugado. De uma simpatia e amabilidade incrível, ajudou-me em tudo. Apenas decidi os conjuntos que queria e as combinações entre eles. Não sei o nome da menina, infelizmente, mas estou-lhe muito agradecida pela atenção desmesurada que me deu.

Estas duas situações são seguramente o que me mais magoam e fazem-me sentir impotente e desamparada. Enquanto muitos, ou todos, nem sequer percebem como é possível não fazer uma conta simples, tipo 3+9, o meu cérebro desliga-se, e não pensa, não age, nem reage. Mas a incompreensão, os rótulos, e as palavras como “vá lá, tens que treinar mais a cabeça,”, “reage, não fiques a pensar nisso”, “tens uma vida tão boa porque é que stresses?”, ainda conseguem doer mais .

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